Semana: 22 a 28.05.2011
Qualquer um de nós já se deixou levar por uma música. Lembra? Pode ter sido lá no passado. Talvez, por conta de um amor perdido. Ou, então, pelo festejo alegre, jovial, dos amigos, virando a noite nos papelões, num dos quintais disponíveis, com a fogueira acesa e a estrelas sob o olhar.
Cada um tem o seu momento e a sua música preferida. Com certeza todos nós tivemos algum momento na vida em que refletimos sobre isso. Certa vez, em Jericoacoara, já nós anos 2.000, havia faltado luz na pousada. Na beirinha da noite, junto à mulher, irmãos, cunhada, filhas e sobrinhos, a oportunidade de conversar sobre coisas fugidias. Sobre aquela música que se alguém perguntar vem a sua cabeça de imediato.
A lembrança e o cantar “Alguém cantando”, imitando Caetano, formavam um quadro interessante. Mas, se fosse piegas qual o problema? Por que é que a gente tem que se sentir constrangido com isso?
E o que é pior, é verdade. A maioria de nós se sente constrangido em comentar que gosta daquela música e que o seu conteúdo nos marcou ou marca muito. Se sente inibido em cantá-la, ou mesmo balbuciá-la, baixinho, perto de outras pessoas.
Porém, no carro, no banheiro, sentado esparramado na poltrona da sala, num sábado à tarde, não se contenta se o som não estiver no volume mais alto, o pensamento longe, e a voz na imensidão. Naquele momento, só se satisfaz quando a música enche o coração até derramar lágrimas, quiçá. E ali, não tem constrangimento, não tem inibição, não tem mais nada, é felicidade pura.
É por saber que isso acontece com as pessoas que não é difícil generalizar e dizer que todos nós sabemos a força que tem a música. Ela pode nos deixar alegres e tristes; transportar-nos distâncias; tornar-nos crianças, vivas e saltitantes. Trazer-nos serenidade plena.
E não precisa ser aquela música preferida, para sentirmo-nos desse jeito. Sem que a gente queira, uma música entra na nossa cabeça; e, às vezes, podemos até, inicialmente, não gostar, mas daí você ouve uma vez, duas vezes, três vezes e pronto, gostou e já faz parte do espaço reservado às emoções, no cérebro e, conseqüentemente, no coração.
Outras vezes, você ouve somente uma vez e já gostou. Pode até ser influenciado por um amigo ou uma resenha, mas, ao final, o que vale é a sua emoção, a qualidade do estado de coisas em que a música ouvida lhe deixou.
E hoje, com a internet, e as mídias sociais, tudo é muito rápido. Já pensou uma música, como a "Oração", em uma semana ter mais de um milhão de audições? É claro, que o entorno da música também conta para o “gostar” de cada um, mas isso só aumenta a força da música, porque nos remete ao potencial coletivo que a música pode ter.
Mas a força coletiva que pode ter uma música é outra coisa, é para outra crônica. Até porque, primeiro, para se tornar coletivo é preciso envolver o individual e esse indivíduo precisa querer externar a sua emoção, quebrando alguns preconceitos.
Bom seria se a gente fosse envolvida por algum projeto em que, num passe de mágica, se pudesse ficar livre de todo o constrangimento e inibição e sem receios pudesse cantar músicas a plenos pulmões. Desafinado, com a voz gasguita, de qualquer jeito, por que não? Talvez, todo mundo, numa grande sala, com fones de ouvido, curtindo e cantando a sua música preferida. Poderia ser um começo.
Talvez, pudesse começar também, com cada um de nós enviando a uma amiga ou um amigo uma mensagem, dizendo “adorei essa música”, com o link da música no “you tube” ou a letra transcrita ou o endereço do site em que se pode baixá-la.
É sempre uma emoção receber algo assim. Uma vez, uma amiga mandou ouvir a música “Wish you were here”, do Pink Floyd. Hoje, a música que toca à noite no subconsciente, ao dormir, é “Tears in Heaven”, de Eric Clapton.
Cada um vive a sua emoção e em um dia são muitas emoções. Ainda vem na lembrança a mensagem da filha querida, contando sobre aquela noite em Jericoacoara: “Pai, aquele momento foi muito legal!”. De certa forma, tudo na vida é música. Cada um tem que construir sua capacidade de fazer parte dessa grande composição, que a todo o momento está se (re) construindo.
Alci de Jesus
Está página contém as crônicas publicadas na página principal do blog Ser Encontro.
domingo, 22 de maio de 2011
domingo, 15 de maio de 2011
O que faz a gente torcer é o mesmo que faz a gente se indignar?
Semana: 15 a 21.05.2011
Com certeza qualquer um de nós já sentiu aquela emoção que não deixa de nos envolver quando estamos torcendo. Pode ser no futebol, no vôlei, no basquete, no ping-pong, na bolinha de gude, ou mesmo em tantas situações não esportivas. Não há quem em toda a sua vida não se envolveu ou não vá se envolver num episódio de “torcer” e possa, sem perceber, até dizer um ou vários palavrões, sem querer, querendo.
A sensação é variada e depende pelo que você está torcendo ou o grau de relacionamento com o possível resultado. Às vezes, não tem nenhum relacionamento com o resultado, mas tem vínculos paralelos com alguém ou uma causa. E isto já é fator de grande mobilização e emoção.
Outras vezes, em especial, quando se trata de questões esportivas, o simples “gozar” o colega de trabalho já basta. A alegria e o despojamento são contagiantes. Até mesmo quem não é torcedor do time vencedor se sente envolvido.
E torcer não tem idade. A formação se dá desde criancinha. Em casa, no colégio, na rua, em tudo há formação para torcer. Não é incomum ver-se uma criança “carregada” com as cores do “time do coração” chorando pela perda do título; ou, então, um velhinho com mais de 80 anos, sorrindo, banguela, a conquista do campeonato.
Não é incomum ver-se, em qualquer canto do mundo, no futebol, no rúgbi, em qualquer esporte, manifestações imensas de pessoas alegres, torcedores ou apenas acompanhantes, vibrando, em festas exuberantes. Uma convergência de energias que nos parece poder mover montanhas.
Torcer parece estar ligado à emoção, e como emoção, às vezes, não se controla, porque não racional. Alguns intelectuais criticam, outros criticam quem critica; hoje, torcer, de forma geral, é “Cult”, isto é, é politicamente correto.
Não se pode deixar de dizer que, talvez, a busca dessa emoção seja da essência do ser humano, ou quiçá resquício dos processos históricos, como da política do pão e circo, da Roma antiga, onde quase todos os dias havia lutas de gladiadores nos estádios, com distribuição de alimentos.
Deve-se dizer também que, apesar de humanos, por vezes torcedores fanáticos, vivemos episódios de insurgência, históricos, de massa, em todos os cantos do planeta, em todas as épocas. No Brasil recente, nas “Diretas Já”, no “Fora Color”, reforçando o que diria Nelson Rodrigues: “A liberdade é mais importante do que o pão”.
É interessante observar como a mesma emoção que nos leva a torcer e que numa rapidez impressionante nos une e nos faz ser multidões, não é aquela emoção, que nós também temos quando nos indignamos com as injustiças e com o que achamos que não é certo na humanidade. Talvez, a tal modernidade nos leve a utilizar mais corriqueiramente, e efetivamente, as redes sociais para a auto-mobilização coletiva, como já ocorreu recentemente.
Porém, ninguém pode achar que é fácil encher um estádio com 50 mil pessoas para ouvir a música de Mikis Theodorakis: “Uma música mais forte do que os tanques de guerra”. Um Ceará e Flamengo talvez consiga com muito mais tranquilidade.
Alci de Jesus
Com certeza qualquer um de nós já sentiu aquela emoção que não deixa de nos envolver quando estamos torcendo. Pode ser no futebol, no vôlei, no basquete, no ping-pong, na bolinha de gude, ou mesmo em tantas situações não esportivas. Não há quem em toda a sua vida não se envolveu ou não vá se envolver num episódio de “torcer” e possa, sem perceber, até dizer um ou vários palavrões, sem querer, querendo.
A sensação é variada e depende pelo que você está torcendo ou o grau de relacionamento com o possível resultado. Às vezes, não tem nenhum relacionamento com o resultado, mas tem vínculos paralelos com alguém ou uma causa. E isto já é fator de grande mobilização e emoção.
Outras vezes, em especial, quando se trata de questões esportivas, o simples “gozar” o colega de trabalho já basta. A alegria e o despojamento são contagiantes. Até mesmo quem não é torcedor do time vencedor se sente envolvido.
E torcer não tem idade. A formação se dá desde criancinha. Em casa, no colégio, na rua, em tudo há formação para torcer. Não é incomum ver-se uma criança “carregada” com as cores do “time do coração” chorando pela perda do título; ou, então, um velhinho com mais de 80 anos, sorrindo, banguela, a conquista do campeonato.
Não é incomum ver-se, em qualquer canto do mundo, no futebol, no rúgbi, em qualquer esporte, manifestações imensas de pessoas alegres, torcedores ou apenas acompanhantes, vibrando, em festas exuberantes. Uma convergência de energias que nos parece poder mover montanhas.
Torcer parece estar ligado à emoção, e como emoção, às vezes, não se controla, porque não racional. Alguns intelectuais criticam, outros criticam quem critica; hoje, torcer, de forma geral, é “Cult”, isto é, é politicamente correto.
Não se pode deixar de dizer que, talvez, a busca dessa emoção seja da essência do ser humano, ou quiçá resquício dos processos históricos, como da política do pão e circo, da Roma antiga, onde quase todos os dias havia lutas de gladiadores nos estádios, com distribuição de alimentos.
Deve-se dizer também que, apesar de humanos, por vezes torcedores fanáticos, vivemos episódios de insurgência, históricos, de massa, em todos os cantos do planeta, em todas as épocas. No Brasil recente, nas “Diretas Já”, no “Fora Color”, reforçando o que diria Nelson Rodrigues: “A liberdade é mais importante do que o pão”.
É interessante observar como a mesma emoção que nos leva a torcer e que numa rapidez impressionante nos une e nos faz ser multidões, não é aquela emoção, que nós também temos quando nos indignamos com as injustiças e com o que achamos que não é certo na humanidade. Talvez, a tal modernidade nos leve a utilizar mais corriqueiramente, e efetivamente, as redes sociais para a auto-mobilização coletiva, como já ocorreu recentemente.
Porém, ninguém pode achar que é fácil encher um estádio com 50 mil pessoas para ouvir a música de Mikis Theodorakis: “Uma música mais forte do que os tanques de guerra”. Um Ceará e Flamengo talvez consiga com muito mais tranquilidade.
Alci de Jesus
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Somos educados? (I)
Semana: 08 a 14.05.2011
O mês passado foi dedicado à leitura. Várias datas marcaram isso. Dia 02 de abril foi o dia internacional do livro infantil. Dia 18 de abril foi o dia nacional do livro infantil. Dia 23 de abril foi o dia mundial do livro e do direito do autor, e no dia 28 de abril comemorou-se o dia da educação.
Não sei por que essas referências vieram à mente quando o ator Clint Eastwood, numa dessas propagandas que vêm antes de um filme no cinema, disse: “afinal, nunca se sabe a quem um filme pode influenciar”.
Juntando as idéias dos parágrafos anteriores, realmente, em princípio, todo mundo defende a educação como um fator que influência as nossas vidas, como uma das possibilidades de mobilidade social. Geralmente a gente relaciona educação com a leitura, especialmente, de livros. E ser educado passa para muitos a idéia de pessoas que realizam as coisas de maneira adequada.
Mas será que essa defesa da educação não é só, como se diz, para inglês ver? E outra, será que a leitura de um livro educa mais do que uma atitude dos pais ou da própria coletividade?
A ligação que está sendo feita é que educação tem relação com a leitura de livros e que ser educado é fazer as coisas corretas. Mas, infelizmente, não é isso que a gente vê no dia a dia. Não é difícil, se você ficar um pouco mais atento, perceber.
Talvez fosse o caso de instituir um Dia Nacional para Avaliarmos a Educação de cada um de nós. Mas não precisava ser um dia específico porque se fosse assim muita gente podia, talvez, querer enganar e se passar por bonzinho. Tinha que ser uma coisa de dentro, de cada um e por isso mesmo, a pessoa poderia realizar sua avaliação em qualquer dia, desde que fizesse uma avaliação séria.
O Ministério da Educação poderia até reservar algum recurso a fim de treinar cada cidadão para se auto-avaliar. O treinamento abrangeria a auto-avaliação desde o acordar até o final do dia, focando em que cada um ficasse mais atento em cada atitude, sua ou dos outros.
Seria um exercício interessante.
Será que todos dão bom dia a suas secretárias? Ficam meio emburrados quando a secretária, não por um descuido, lê o jornal antes do patrão? Aborrecem-se porque a secretária não limpou a caca da cachorra, que não fez a coisa no lugar certo?
Na padaria, no supermercado, na compra diária do pão quentinho ou das compras da semana, uma das observações seria verificar se estão tirando o carrinho vazio da boca do caixa. Parece que quem vem atrás tem a obrigação de fazê-lo ou, talvez, haja a transferência dessa tarefa para a própria empresa, só que a empresa, geralmente, não faz daí quem paga o pato? E o pior é que as pessoas não estão nem aí, parece já ser uma obrigação cristalizada: quem vem atrás na fila do supermercado tira o carrinho vazio deixado por outra pessoa na boca do caixa.
No trânsito, na hora de deixar os meninos na escola ou ir e voltar do trabalho, muitas coisas poderiam ser observadas. Tem os que avançam o sinal, os que colocam o bico do carro na mão quando vão passar uma preferencial, os que não dão sinal algum se vão dobrar, os que andam pela contramão e se sentem totalmente à vontade – quem está na mão certa que desvie seu carro, os que buzinam por qualquer coisa sem observar que o trajeto está engarrafado e ninguém vai poder passar seu carro por cima dos outros, aqueles que ficam tão irritados, às vezes sem razão, e soltam palavrões. Com esses é preciso ter muito cuidado.
E o pior de tudo é que esses adultos fazem tudo isso na frente dos seus filhos menores.
Mas ainda tem muito mais coisas a serem observadas. Tem o tratamento com os filhos e com a mulher em casa, com os pais, com os parentes, com os amigos, com os vizinhos, com os colegas de trabalho. Será que é importante observar também a participação nas reuniões de condomínio? A contribuição que se está dando a comunidade onde mora? A voz no orçamento participativo do bairro?
De fato, observar as diversas relações que se tem, como, por exemplo, com as empregadas domésticas é um grande exercício de análise se somos ou não educados. Obviamente por trás de tudo isso tem coisas bem maiores, culturais, sociais, políticas; tem a questão da cidadania.
Às vezes, a gente vê a secretária ou o próprio dono do cachorro - que levou o saquinho para isso - agachado e resgatando as fezes do animal de estimação para colocar no lixo próximo. Muitos não o fazem, por quê?
Muitos desses são os mesmos que reclamam da Prefeitura por não realizar a coleta de lixo (mas não evitam colocar o lixo fora da data indicada pela empresa coletora) ou do administrador do condomínio da limpeza medíocre que estão fazendo da sua área comum (mas colocam a guimba de cigarro na escada e as cinzas em qualquer lugar do prédio).
Por tudo relatado, as respostas às perguntas poderiam parecer fáceis, mas não são. De fato, há muita retórica em relação à educação, senão as pessoas não agiriam do jeito que agem. Por outro lado, não é incomum uma filha que lê bastante pedir ao pai: "Pai, não dirija o carro fazendo ligação ao telefone". Ou, então, criancinhas que estão no infantil replicarem: você não falou as palavrinhas mágicas! Isso indica uma luz no fim do túnel, afinal de contas nem sempre "filho de peixe, peixinho é"!
Alci de Jesus
O mês passado foi dedicado à leitura. Várias datas marcaram isso. Dia 02 de abril foi o dia internacional do livro infantil. Dia 18 de abril foi o dia nacional do livro infantil. Dia 23 de abril foi o dia mundial do livro e do direito do autor, e no dia 28 de abril comemorou-se o dia da educação.
Não sei por que essas referências vieram à mente quando o ator Clint Eastwood, numa dessas propagandas que vêm antes de um filme no cinema, disse: “afinal, nunca se sabe a quem um filme pode influenciar”.
Juntando as idéias dos parágrafos anteriores, realmente, em princípio, todo mundo defende a educação como um fator que influência as nossas vidas, como uma das possibilidades de mobilidade social. Geralmente a gente relaciona educação com a leitura, especialmente, de livros. E ser educado passa para muitos a idéia de pessoas que realizam as coisas de maneira adequada.
Mas será que essa defesa da educação não é só, como se diz, para inglês ver? E outra, será que a leitura de um livro educa mais do que uma atitude dos pais ou da própria coletividade?
A ligação que está sendo feita é que educação tem relação com a leitura de livros e que ser educado é fazer as coisas corretas. Mas, infelizmente, não é isso que a gente vê no dia a dia. Não é difícil, se você ficar um pouco mais atento, perceber.
Talvez fosse o caso de instituir um Dia Nacional para Avaliarmos a Educação de cada um de nós. Mas não precisava ser um dia específico porque se fosse assim muita gente podia, talvez, querer enganar e se passar por bonzinho. Tinha que ser uma coisa de dentro, de cada um e por isso mesmo, a pessoa poderia realizar sua avaliação em qualquer dia, desde que fizesse uma avaliação séria.
O Ministério da Educação poderia até reservar algum recurso a fim de treinar cada cidadão para se auto-avaliar. O treinamento abrangeria a auto-avaliação desde o acordar até o final do dia, focando em que cada um ficasse mais atento em cada atitude, sua ou dos outros.
Seria um exercício interessante.
Será que todos dão bom dia a suas secretárias? Ficam meio emburrados quando a secretária, não por um descuido, lê o jornal antes do patrão? Aborrecem-se porque a secretária não limpou a caca da cachorra, que não fez a coisa no lugar certo?
Na padaria, no supermercado, na compra diária do pão quentinho ou das compras da semana, uma das observações seria verificar se estão tirando o carrinho vazio da boca do caixa. Parece que quem vem atrás tem a obrigação de fazê-lo ou, talvez, haja a transferência dessa tarefa para a própria empresa, só que a empresa, geralmente, não faz daí quem paga o pato? E o pior é que as pessoas não estão nem aí, parece já ser uma obrigação cristalizada: quem vem atrás na fila do supermercado tira o carrinho vazio deixado por outra pessoa na boca do caixa.
No trânsito, na hora de deixar os meninos na escola ou ir e voltar do trabalho, muitas coisas poderiam ser observadas. Tem os que avançam o sinal, os que colocam o bico do carro na mão quando vão passar uma preferencial, os que não dão sinal algum se vão dobrar, os que andam pela contramão e se sentem totalmente à vontade – quem está na mão certa que desvie seu carro, os que buzinam por qualquer coisa sem observar que o trajeto está engarrafado e ninguém vai poder passar seu carro por cima dos outros, aqueles que ficam tão irritados, às vezes sem razão, e soltam palavrões. Com esses é preciso ter muito cuidado.
E o pior de tudo é que esses adultos fazem tudo isso na frente dos seus filhos menores.
Mas ainda tem muito mais coisas a serem observadas. Tem o tratamento com os filhos e com a mulher em casa, com os pais, com os parentes, com os amigos, com os vizinhos, com os colegas de trabalho. Será que é importante observar também a participação nas reuniões de condomínio? A contribuição que se está dando a comunidade onde mora? A voz no orçamento participativo do bairro?
De fato, observar as diversas relações que se tem, como, por exemplo, com as empregadas domésticas é um grande exercício de análise se somos ou não educados. Obviamente por trás de tudo isso tem coisas bem maiores, culturais, sociais, políticas; tem a questão da cidadania.
Às vezes, a gente vê a secretária ou o próprio dono do cachorro - que levou o saquinho para isso - agachado e resgatando as fezes do animal de estimação para colocar no lixo próximo. Muitos não o fazem, por quê?
Muitos desses são os mesmos que reclamam da Prefeitura por não realizar a coleta de lixo (mas não evitam colocar o lixo fora da data indicada pela empresa coletora) ou do administrador do condomínio da limpeza medíocre que estão fazendo da sua área comum (mas colocam a guimba de cigarro na escada e as cinzas em qualquer lugar do prédio).
Por tudo relatado, as respostas às perguntas poderiam parecer fáceis, mas não são. De fato, há muita retórica em relação à educação, senão as pessoas não agiriam do jeito que agem. Por outro lado, não é incomum uma filha que lê bastante pedir ao pai: "Pai, não dirija o carro fazendo ligação ao telefone". Ou, então, criancinhas que estão no infantil replicarem: você não falou as palavrinhas mágicas! Isso indica uma luz no fim do túnel, afinal de contas nem sempre "filho de peixe, peixinho é"!
Alci de Jesus
domingo, 1 de maio de 2011
Agora, redes sociais?
Semana: 01 a 07.05.2011
Por um acaso, num desses repentes que sempre se espera seja longo, até por conta do exemplo a ser dado a uma filha querida, a gente se permite resgatar fervorosamente a leitura. Se você tem recursos para comprar pelo menos um livro por mês, legal, porque daí você lerá pelo menos 12 livros por ano, o que já é bem mais do que a média brasileira.
Mas, se dá a sorte de ter acesso a uma boa biblioteca da empresa onde trabalha, aí é uma oportunidade. Além disso, você pode também tentar a biblioteca da escola do seu filho (na do Colégio Santa Cecília tem vários livros da bibliografia do Saramago). Na realidade, toda escola tem que ter uma biblioteca, e, às vezes, é muito boa, e mesmo se não for diversa, não é possível que não tenha algum livro que agrade. E ainda, ninguém pode alegar que não existe, todo município tem uma biblioteca, além das bibliotecas do Estado.
Passeando por uma dessas bibliotecas, um livro chamou a atenção: “Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade”, de Martin Seymour-Smith. Na capa o chamativo subtítulo: a História do Pensamento dos Tempos Antigos à Atualidade.
Pelo sumário, vendo os livros que são retratados, já se tenta imaginar o teor das sinopses. E as sinopses, que na verdade não são sinopses, explicitam – com justificativas - a pretensa importância dada aos livros que são relatados.
Pelos primeiros livros, que seguem uma ordem cronológica, a partir de 1500 anos antes de Cristo, vê-se que é como se retratassem a origem do pensamento, da filosofia, antes mesmo da escrita.
Imaginar como por séculos, pela linguagem oral, foram reproduzidas aquelas histórias, que depois foram registradas pela escrita, é impressionante. Naquele tempo, onde as distâncias eram muito maiores do que hoje, onde as guerras pela ocupação do espaço e pela manutenção do poder era o cotidiano dos povos havia a preocupação da reprodução (ou aniquilação) das histórias das nações, inclusive como instrumento de dominação. Existiam pessoas que sobreviviam exatamente por emitir, verbalmente, a história de uma grande batalha, de uma grande vitória, de um grande sábio ou filósofo, de um ritual especial. Na verdade, naquilo que em nossa mente chamamos de passado, existia uma rede social, não exatamente como existe hoje.
É verdade, cada um de nós certamente ouviu o nosso pai, já na faixa dos cinqüenta, falar: “naquele tempo, as pessoas, na boquinha da noite, sentavam nas calçadas e contavam histórias”. Se recordarmos, na escola, as professoras contavam que os povos indígenas entoavam canções com as histórias de seus antepassados. E não raramente, se ouve falar de um acontecido, que passando de boca em boca, virou verdade verdadeira e passou a ser reproduzido e ensinado, com seus valores e atitudes virando doutrina para toda uma região.
Alguns, que se diriam saudosistas, reclamam que não há mais essa conversa, face a face; que não há mais oportunidades de contar as histórias; que os mais jovens não se interessam mais por isso.
Muitos alegam que a modernidade trouxe essa transformação. No Brasil a vida virou mais urbana, e a cultura de reproduzir oralmente histórias, que é mais rural, foi se perdendo. Alguns alegam que tem muita relação com as novas formas de comunicação.
De fato, a realidade da internet, com seu e-mail, msn, twitter, orkut e, agora, facebook é muito diferente e transformadora. As possibilidades de criação de páginas, blogs etc., assim como de se estabelecerem as conversas e relações é tão veloz, que pode ser sufocante. E não seria questionável se os educadores alegassem que, no geral, está se perdendo a profundidade.
Porém, parece que as novas mídias podem ser instrumento de resgate daquela velha rede social, dos nossos pais e avós, de nossos ancestrais, mas de outra forma. Parece ser concreta a possibilidade da construção (e resgate) de uma rede de amigos, e a partir do meio virtual se programar encontros, e vivenciar-se novos projetos presenciais.
É real, só que virtual, o “papo diário de calçada” e com um raio de ação muito maior do que somente os vizinhos de meia parede. Agora os amigos estão em todas as ruas do bairro, em todos os bairros, em toda cidade, no estado, no país e até no estrangeiro.
É fácil alguém convidar para uma audição dos velhos e bons discos de vinil na casa da Elaine, ou, então, para um jantar na casa da Bembi ou ser provocado pelo chamamento alegre da Fernanda para a saudação aos irmãos indígenas. A poesia, o romantismo desse concreto porvir depende de cada um.
Voltar ao passado, nos afastar dos nossos espigões, onde estamos engaiolados e protegidos, e de onde exalamos nossas palavras por meio das novas mídias pode ser difícil. Reconstruir essas mídias a nosso favor é uma possibilidade.
E por outro lado, mal comparando, a gente sabe que aquela cultura oral, que de certa forma está reproduzida nas redes sociais atuais, não se acabará jamais, basta ver como funciona a “rádio peão”, especialmente, nas conversas nos corredores da empresa ou no bate-papo no horário de almoço. Isso faz parte da gente, é como diz um velho amigo: “de quem vamos falar hoje?”. E depois, vem uma doce e enorme gargalhada.
Alci de Jesus
sábado, 23 de abril de 2011
Vidas que suportam outras vidas!
Semana: 24 a 30.04.2011
Nestes dias da semana santa cristã não tem como deixar de lado alguma referência à passagem da paixão e morte de Cristo.
Alguns diriam: mas, e os que viajam? Ora, os que viajam, até pelo fato de poderem viajar num grande feriadão, estão totalmente referenciados na páscoa.
E, de fato, as pessoas viajam. Você anda pelas ruas de uma capital, e vê, objetivamente, que não há aquela circulação de carros; que nos restaurantes, na hora do almoço, não tem aquele alvoroço de gente, e nos supermercados, passado o período de compras dos retardatários, tudo é relativamente mais tranqüilo. Na padaria também é do mesmo jeito.
Por falar em padaria, comprando o tradicional pão de coco, olhando para a caixa - que estava de lado-, na quinta-feira santa, não deu para resistir à pergunta, até por uma questão de necessidade da informação: amanhã vocês fecham, não é? Meio surpreso com a resposta negativa, imediatamente injeta-se outra: mas funciona inclusive a parte de doces e salgados? Outra surpresa. E a resposta afirmativa veio com aquele olhar fulminante, cara a cara, quase querendo dizer: poxa, meu amigo, em que mundo você está?
Ora, estamos no mundo da semana santa, pois não!
Não, não é uma resposta portuguesa (ou é?), talvez a ingenuidade de imaginar que como é dado a cristãos e não cristãos o direito ao feriadão, aos pobres trabalhadores de uma padaria também seria fato essa possibilidade. Mas não é! Acreditem!
Na verdade, como já comentado, nem tudo fecha no feriadão. Apesar de terem menor freqüência, restaurantes, supermercados, padarias, postos de gasolina, e, principalmente, hotéis e pousadas - que ao contrário estão abarrotados - além de aeroportos e estações rodoviárias, funcionam.
Já pensou se aquelas pessoas que viajam para descansar, comer uma boa comida, desfrutar de uma boa piscina, realizar passeios de barcos, bugres etc. ou gozar de outros equipamentos turísticos ficassem durante o feriadão sem tais serviços? Já pensou se os que viajam não tivessem os serviços de vigilância para vigiar os seus patrimônios? Talvez fosse um caos se não funcionassem hospitais e as polícias, em geral, independentemente de onde se estivesse, viajando ou não.
A constatação é que, apesar dos feriados e por conta dos feriados, a vida continua do mesmo jeito ou de jeito diferente, mais tranqüila ou mais intensa, dependendo da cidade em que você mora, dependendo da crença que você tem.
E se espera, sempre, uma certeza: ter alguém que possa lhe prestar serviços. E quase sempre também o pensamento é de que se você pode pagar, o outro tem que lhe retornar o melhor que puder. E, por vezes, não se tem referência alguma com o período que lhe motivou poder viajar.
Talvez, absolutamente, a convicção seja de que se não fosse você aquele não teria condições de ser ele, já que não teria trabalho. Isto é, aquele, na semana santa, não ter direito ao feriadão e a vestir a sua religiosidade em plenitude é secundário, faz parte do sistema.
Cristão que é cristão ou, até mesmo, aquele de formação católica, por exemplo, não deixa de ir a uma missa na semana santa. Não cristão também não deixa de pensar sobre a páscoa, nem que seja por conta do feriadão.
Invariavelmente, nesse período, o padre vai falar da necessidade de se doar ao outro, de reforçar que o amor é o que salva as pessoas, e de que é necessário quebrar as amarras do egoísmo e da auto-suficiência, que é necessária mais humildade, e que se cada um lavasse os pés uns dos outros, as coisas seriam diferentes. Nessas horas, o cristão não deveria deixar de pensar no suporte que é dado as nossas vidas por pessoas simples, que não têm outra opção, porque não tiveram oportunidades, porque não estudaram, e, principalmente, porque segundo a Lei serão os escolhidos.
Para os não cristãos a reflexão deveria ser da mesma forma: quem dá suporte as nossas vidas? O que acontece com essas pessoas?
Lembro da menina de 12 anos, que, talvez tendo compreendido essa relação, fazia questão de dar boa noite e conversar com as secretarias reunidas no lado escuro do recuo da entrada do prédio. Afinal, uma daquelas sempre deu bastante suporte a sua vida.
Alci de Jesus
Nestes dias da semana santa cristã não tem como deixar de lado alguma referência à passagem da paixão e morte de Cristo.
Alguns diriam: mas, e os que viajam? Ora, os que viajam, até pelo fato de poderem viajar num grande feriadão, estão totalmente referenciados na páscoa.
E, de fato, as pessoas viajam. Você anda pelas ruas de uma capital, e vê, objetivamente, que não há aquela circulação de carros; que nos restaurantes, na hora do almoço, não tem aquele alvoroço de gente, e nos supermercados, passado o período de compras dos retardatários, tudo é relativamente mais tranqüilo. Na padaria também é do mesmo jeito.
Por falar em padaria, comprando o tradicional pão de coco, olhando para a caixa - que estava de lado-, na quinta-feira santa, não deu para resistir à pergunta, até por uma questão de necessidade da informação: amanhã vocês fecham, não é? Meio surpreso com a resposta negativa, imediatamente injeta-se outra: mas funciona inclusive a parte de doces e salgados? Outra surpresa. E a resposta afirmativa veio com aquele olhar fulminante, cara a cara, quase querendo dizer: poxa, meu amigo, em que mundo você está?
Ora, estamos no mundo da semana santa, pois não!
Não, não é uma resposta portuguesa (ou é?), talvez a ingenuidade de imaginar que como é dado a cristãos e não cristãos o direito ao feriadão, aos pobres trabalhadores de uma padaria também seria fato essa possibilidade. Mas não é! Acreditem!
Na verdade, como já comentado, nem tudo fecha no feriadão. Apesar de terem menor freqüência, restaurantes, supermercados, padarias, postos de gasolina, e, principalmente, hotéis e pousadas - que ao contrário estão abarrotados - além de aeroportos e estações rodoviárias, funcionam.
Já pensou se aquelas pessoas que viajam para descansar, comer uma boa comida, desfrutar de uma boa piscina, realizar passeios de barcos, bugres etc. ou gozar de outros equipamentos turísticos ficassem durante o feriadão sem tais serviços? Já pensou se os que viajam não tivessem os serviços de vigilância para vigiar os seus patrimônios? Talvez fosse um caos se não funcionassem hospitais e as polícias, em geral, independentemente de onde se estivesse, viajando ou não.
A constatação é que, apesar dos feriados e por conta dos feriados, a vida continua do mesmo jeito ou de jeito diferente, mais tranqüila ou mais intensa, dependendo da cidade em que você mora, dependendo da crença que você tem.
E se espera, sempre, uma certeza: ter alguém que possa lhe prestar serviços. E quase sempre também o pensamento é de que se você pode pagar, o outro tem que lhe retornar o melhor que puder. E, por vezes, não se tem referência alguma com o período que lhe motivou poder viajar.
Talvez, absolutamente, a convicção seja de que se não fosse você aquele não teria condições de ser ele, já que não teria trabalho. Isto é, aquele, na semana santa, não ter direito ao feriadão e a vestir a sua religiosidade em plenitude é secundário, faz parte do sistema.
Cristão que é cristão ou, até mesmo, aquele de formação católica, por exemplo, não deixa de ir a uma missa na semana santa. Não cristão também não deixa de pensar sobre a páscoa, nem que seja por conta do feriadão.
Invariavelmente, nesse período, o padre vai falar da necessidade de se doar ao outro, de reforçar que o amor é o que salva as pessoas, e de que é necessário quebrar as amarras do egoísmo e da auto-suficiência, que é necessária mais humildade, e que se cada um lavasse os pés uns dos outros, as coisas seriam diferentes. Nessas horas, o cristão não deveria deixar de pensar no suporte que é dado as nossas vidas por pessoas simples, que não têm outra opção, porque não tiveram oportunidades, porque não estudaram, e, principalmente, porque segundo a Lei serão os escolhidos.
Para os não cristãos a reflexão deveria ser da mesma forma: quem dá suporte as nossas vidas? O que acontece com essas pessoas?
Lembro da menina de 12 anos, que, talvez tendo compreendido essa relação, fazia questão de dar boa noite e conversar com as secretarias reunidas no lado escuro do recuo da entrada do prédio. Afinal, uma daquelas sempre deu bastante suporte a sua vida.
Alci de Jesus
domingo, 17 de abril de 2011
Tudo ao mesmo tempo agora?
Semana: 17 a 23.04.2011
Como é que você consegue tempo para fazer tudo isso?
Essa pergunta, de alguma amiga ou mesmo de um conhecido, o qual tem alguma percepção de nossa vida, às vezes, nos assalta. E, geralmente, estão certos.
Até porque não quer dizer que é uma coisa boa. Por que seria? Será que é legal você querer ou precisar fazer tudo ao mesmo tempo, agora? O que quer dizer a palavra “agora”? Recuperar o tempo perdido?
Realizar tudo ao mesmo tempo agora parece um conceito tecnológico: tudo num mesmo espaço/tempo como um padrão comunicacional ou funcional que visa a garantir adesão, fidelidade e, principalmente, eficiência, com o objetivo de acelerar a realização de um objetivo, que envolve várias coisas. Parece um conceito da modernidade.
Na faculdade de Direito, no final de 80, numa disputa para o Centro Acadêmico Clóvis Bevilácqua, uma das chapas chamava-se “Tudo ao mesmo tempo agora” e dava a noção de resgate de diversas ações, de várias temáticas que não vinham sendo realizadas. Em 1991, os Titãs lançavam o álbum com o mesmo nome, com mistura de ritmos, assim como Ana Maria Machado, em 2004, editava um livro sob o mesmo título, que trazia várias situações vivenciadas por um rapaz humilde.
As três situações podem ser coincidências e não ter relacionamento com o conceito futurista de aldeia global, de Macluhan, que em 1964 trouxe ao mundo a publicação “Os meios de Comunicação como Extensões do Homem”. E que segundo Coupland descreve uma revolução da televisão e das telecomunicações, estabelecendo as implicações da rede de consumidores quatro décadas antes que ela desabrochasse.
Podem ser coisas desconexas do futurismo de Macluran, mas também podem ser reproduções da vida, do mundo, da mídia, que nos assimila e nos modifica e nos leva a situações em que tudo é realizado ao mesmo tempo, em que tudo tem que ser realizado agora.
E o mais interessante é que, talvez, sem a gente perceber, de fato, tudo venha ao mesmo tempo e você vai fazendo, e apesar das coisas parecerem desconexas, elas são compreendidas como interdependentes. É fácil perceber que isso acontece. Arranja-se um trabalho, estuda-se para arranjar outro trabalho, que lhe permite ter outros penduricalhos, e assim vai e você se vê trabalhando 12 horas por dia. É a Net funcionando. Um projeto; que começa a crescer e daí as facilidades comunicacionais, logísticas etc., os resultados pessoais, profissionais, financeiros e assim vai e você passa todo o seu tempo livre à frente de um computador. É a Net funcionando.
Pode parecer estranho essa atitude diante do mundo atual, globalizado, em que há linhas de pensamento exigindo que se desacelere (Boff) ou, então, que tenhamos mais ócio criativo (Domenico De Masi) ou que mudemos nossos hábitos, nossa vida, combatendo formas de estresse, uma das grandes doenças do século XX.
De fato, esse domínio produzido e reproduzido pela homogeneização global existe. Mas, às vezes, não é isso, as coisas são planejadas. Você tem a noção exata de que algum tempo ou algo foi perdido e que é necessário acelerar para poder transformar e mudar o rumo das coisas, para se aproximar daquilo que você entende como felicidade.
Por isso não dá para desconsiderar a atitude de um pai, que perdeu uma filha num atentado estúpido de um homem tresloucado, se o mesmo desejar mudar totalmente de vida, e buscar realizar tudo o que pode e não o fez, ainda.
Também não dá para inibir a vontade de quem, de repente, por qualquer tipo de perda ou revelação, percebe que passou boa parte da vida sem fazer as coisas que gostou de realizar, e vê ser possível, retomá-las, mesmo que os outros não entendam como arranja tempo.
Atitudes como estas não são alienadas, por vezes, é a busca do equilíbrio. Não seria insensato pensar em mudar o sistema, de forma a realizar as coisas necessárias, ao mesmo tempo, já, agora.
Então, não estranhem se a resposta àquela pergunta inicial for: “o que é que você faz de meia-noite às seis da manhã? Brincadeirinha.
Alci de Jesus
Como é que você consegue tempo para fazer tudo isso?
Essa pergunta, de alguma amiga ou mesmo de um conhecido, o qual tem alguma percepção de nossa vida, às vezes, nos assalta. E, geralmente, estão certos.
Até porque não quer dizer que é uma coisa boa. Por que seria? Será que é legal você querer ou precisar fazer tudo ao mesmo tempo, agora? O que quer dizer a palavra “agora”? Recuperar o tempo perdido?
Realizar tudo ao mesmo tempo agora parece um conceito tecnológico: tudo num mesmo espaço/tempo como um padrão comunicacional ou funcional que visa a garantir adesão, fidelidade e, principalmente, eficiência, com o objetivo de acelerar a realização de um objetivo, que envolve várias coisas. Parece um conceito da modernidade.
Na faculdade de Direito, no final de 80, numa disputa para o Centro Acadêmico Clóvis Bevilácqua, uma das chapas chamava-se “Tudo ao mesmo tempo agora” e dava a noção de resgate de diversas ações, de várias temáticas que não vinham sendo realizadas. Em 1991, os Titãs lançavam o álbum com o mesmo nome, com mistura de ritmos, assim como Ana Maria Machado, em 2004, editava um livro sob o mesmo título, que trazia várias situações vivenciadas por um rapaz humilde.
As três situações podem ser coincidências e não ter relacionamento com o conceito futurista de aldeia global, de Macluhan, que em 1964 trouxe ao mundo a publicação “Os meios de Comunicação como Extensões do Homem”. E que segundo Coupland descreve uma revolução da televisão e das telecomunicações, estabelecendo as implicações da rede de consumidores quatro décadas antes que ela desabrochasse.
Podem ser coisas desconexas do futurismo de Macluran, mas também podem ser reproduções da vida, do mundo, da mídia, que nos assimila e nos modifica e nos leva a situações em que tudo é realizado ao mesmo tempo, em que tudo tem que ser realizado agora.
E o mais interessante é que, talvez, sem a gente perceber, de fato, tudo venha ao mesmo tempo e você vai fazendo, e apesar das coisas parecerem desconexas, elas são compreendidas como interdependentes. É fácil perceber que isso acontece. Arranja-se um trabalho, estuda-se para arranjar outro trabalho, que lhe permite ter outros penduricalhos, e assim vai e você se vê trabalhando 12 horas por dia. É a Net funcionando. Um projeto; que começa a crescer e daí as facilidades comunicacionais, logísticas etc., os resultados pessoais, profissionais, financeiros e assim vai e você passa todo o seu tempo livre à frente de um computador. É a Net funcionando.
Pode parecer estranho essa atitude diante do mundo atual, globalizado, em que há linhas de pensamento exigindo que se desacelere (Boff) ou, então, que tenhamos mais ócio criativo (Domenico De Masi) ou que mudemos nossos hábitos, nossa vida, combatendo formas de estresse, uma das grandes doenças do século XX.
De fato, esse domínio produzido e reproduzido pela homogeneização global existe. Mas, às vezes, não é isso, as coisas são planejadas. Você tem a noção exata de que algum tempo ou algo foi perdido e que é necessário acelerar para poder transformar e mudar o rumo das coisas, para se aproximar daquilo que você entende como felicidade.
Por isso não dá para desconsiderar a atitude de um pai, que perdeu uma filha num atentado estúpido de um homem tresloucado, se o mesmo desejar mudar totalmente de vida, e buscar realizar tudo o que pode e não o fez, ainda.
Também não dá para inibir a vontade de quem, de repente, por qualquer tipo de perda ou revelação, percebe que passou boa parte da vida sem fazer as coisas que gostou de realizar, e vê ser possível, retomá-las, mesmo que os outros não entendam como arranja tempo.
Atitudes como estas não são alienadas, por vezes, é a busca do equilíbrio. Não seria insensato pensar em mudar o sistema, de forma a realizar as coisas necessárias, ao mesmo tempo, já, agora.
Então, não estranhem se a resposta àquela pergunta inicial for: “o que é que você faz de meia-noite às seis da manhã? Brincadeirinha.
Alci de Jesus
domingo, 10 de abril de 2011
O que a morte causa em cada um de nós? Sobre as mortes em Realengo, no Rio de Janeiro.
Semana: 10 a 16.04.2011
Como não falar sobre a tragédia que ocorreu no Rio de Janeiro, Brasil, nesta ultima semana?
O Assis me liga e diz que nós temos que soltar alguma notícia quanto ao que aconteceu no Rio de Janeiro! E me pergunta o que acho. Daí se desenrola em poucas frases a aprovação mútua.
No site da Associação dos Funcionários do Banco do Nordeste – AFBNB sai nota de solidariedade às famílias em luto, que perderam filhas e filhos, e também às que estão sofrendo a expectativa do restabelecimento de seus parentes queridos.
E a nota da Associação coloca três grandes questões: Que modelo de sociedade nós construímos (e estamos construindo)? Que mundo nós queremos deixar para nossos filhos e netos? E o que podemos começar a fazer, hoje, para transformar essa cruel realidade?
As notícias do Rio mostram a explosão de sentimentos das pessoas. Não somente as famílias que tiveram os filhos ou parentes envolvidos com a tragédia sofrem ou passam por algum tipo de transtorno: medo, ansiedade, desesperança, raiva.
As famílias, em todo o Brasil, talvez no mundo, estiveram e estão preocupadas em como falar sobre o fato às suas crianças. Pôxa, mas nem na escola, no segundo local de moradia dos nossos filhos, há segurança? Como uma criança ou adolescente vai se sentir ao ir ao colégio, a um shopping, enfim, a qualquer lugar?
O fato atinge a todos e a informação chegou a todos. Minhas filhas, que às vezes não sabem de alguma notícia que está ocorrendo, pelo menos não com tanta tempestividade, sabiam de tudo logo no mesmo dia; ouviram falar dos detalhes, acorreram aos sites de informações para ver como havia acontecido.
Uma delas me liga no trabalho, e diz que não tem ninguém em casa. Relata que nenhuma das irmãs chegou do colégio, e que a secretaria saiu, que fora para a missa de sétimo dia do seu avô. Um pedido de apoio, talvez pela sensação de que o mundo está descontrolado e que a qualquer momento, onde você estiver, até na sua casa, você pode correr algum perigo.
Essa é uma sensação de verdade para uma criança ou adolescente. As mortes de Realengo, no Rio de Janeiro, e as da Holanda, no shopping passam essa percepção.
A morte é uma realidade para os seres viventes. E acontece mais próximo da gente, do que a gente às vezes percebe. Se pararmos um pouco e lembrarmo-nos daquelas pessoas próximas ou próximas de nossos amigos que morreram, veremos que não é uma coisa tão distante.
No âmbito pessoal, cada um, na sua individualidade, busca o caminho para enfrentar a dor da perda e a saudade de um ente querido que faleceu. Cada um vive o seu luto, no tempo e com os mecanismos que cria para suportar a ausência e as perspectivas que não mais existem.
Às vezes, é possível construir instrumentos de apoio à realização das perspectivas projetando outras perspectivas, por meio de movimentos de todos os tipos, montagem de blogs etc. É uma busca de, a partir do individual, socializar um compromisso com uma causa e dar significado a uma perda.
Mas como diria o Assis, neste caso do Rio de Janeiro há comoção e indignação. Perder uma filha, numa morte prematura, por motivo de doença, causa muita dor e mudanças profundas no nosso modo de pensar e agir. Perder uma filha numa tamanha brutalidade como a ocorrida no Rio de Janeiro exige que avancemos na promoção de mudanças no âmbito coletivo.
Não posso deixar de pensar na filosofia ingênua explicitada por uma adolescente: um dia sem sorriso é um dia perdido. E na frase cunhada a partir dessa visão e da importância que deve ser dado à educação: um dia sem aprendizado é uma dia perdido.
Que nós possamos aprender e fazer a transformação que esse mundo merece.
Como não falar sobre a tragédia que ocorreu no Rio de Janeiro, Brasil, nesta ultima semana?
O Assis me liga e diz que nós temos que soltar alguma notícia quanto ao que aconteceu no Rio de Janeiro! E me pergunta o que acho. Daí se desenrola em poucas frases a aprovação mútua.
No site da Associação dos Funcionários do Banco do Nordeste – AFBNB sai nota de solidariedade às famílias em luto, que perderam filhas e filhos, e também às que estão sofrendo a expectativa do restabelecimento de seus parentes queridos.
E a nota da Associação coloca três grandes questões: Que modelo de sociedade nós construímos (e estamos construindo)? Que mundo nós queremos deixar para nossos filhos e netos? E o que podemos começar a fazer, hoje, para transformar essa cruel realidade?
As notícias do Rio mostram a explosão de sentimentos das pessoas. Não somente as famílias que tiveram os filhos ou parentes envolvidos com a tragédia sofrem ou passam por algum tipo de transtorno: medo, ansiedade, desesperança, raiva.
As famílias, em todo o Brasil, talvez no mundo, estiveram e estão preocupadas em como falar sobre o fato às suas crianças. Pôxa, mas nem na escola, no segundo local de moradia dos nossos filhos, há segurança? Como uma criança ou adolescente vai se sentir ao ir ao colégio, a um shopping, enfim, a qualquer lugar?
O fato atinge a todos e a informação chegou a todos. Minhas filhas, que às vezes não sabem de alguma notícia que está ocorrendo, pelo menos não com tanta tempestividade, sabiam de tudo logo no mesmo dia; ouviram falar dos detalhes, acorreram aos sites de informações para ver como havia acontecido.
Uma delas me liga no trabalho, e diz que não tem ninguém em casa. Relata que nenhuma das irmãs chegou do colégio, e que a secretaria saiu, que fora para a missa de sétimo dia do seu avô. Um pedido de apoio, talvez pela sensação de que o mundo está descontrolado e que a qualquer momento, onde você estiver, até na sua casa, você pode correr algum perigo.
Essa é uma sensação de verdade para uma criança ou adolescente. As mortes de Realengo, no Rio de Janeiro, e as da Holanda, no shopping passam essa percepção.
A morte é uma realidade para os seres viventes. E acontece mais próximo da gente, do que a gente às vezes percebe. Se pararmos um pouco e lembrarmo-nos daquelas pessoas próximas ou próximas de nossos amigos que morreram, veremos que não é uma coisa tão distante.
No âmbito pessoal, cada um, na sua individualidade, busca o caminho para enfrentar a dor da perda e a saudade de um ente querido que faleceu. Cada um vive o seu luto, no tempo e com os mecanismos que cria para suportar a ausência e as perspectivas que não mais existem.
Às vezes, é possível construir instrumentos de apoio à realização das perspectivas projetando outras perspectivas, por meio de movimentos de todos os tipos, montagem de blogs etc. É uma busca de, a partir do individual, socializar um compromisso com uma causa e dar significado a uma perda.
Mas como diria o Assis, neste caso do Rio de Janeiro há comoção e indignação. Perder uma filha, numa morte prematura, por motivo de doença, causa muita dor e mudanças profundas no nosso modo de pensar e agir. Perder uma filha numa tamanha brutalidade como a ocorrida no Rio de Janeiro exige que avancemos na promoção de mudanças no âmbito coletivo.
Não posso deixar de pensar na filosofia ingênua explicitada por uma adolescente: um dia sem sorriso é um dia perdido. E na frase cunhada a partir dessa visão e da importância que deve ser dado à educação: um dia sem aprendizado é uma dia perdido.
Que nós possamos aprender e fazer a transformação que esse mundo merece.
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