domingo, 12 de junho de 2011

Mensagens subliminares ou presentes?

Dia dos Namorados: 12 de Junho de 2011

Geralmente, na semana do dia dos namorados, tem sempre alguém dizendo: “Isso é coisa do mercado, do consumismo, do capitalismo; dia dos namorados é todo dia”. E quem assim fala acredita que faz de todo dia um dia especial, mas não como o dia dos namorados tal qual é propagado hoje em dia. Quem assim diz se sente fazendo de todo dia um dia especial, porque em sua consciência pequenas ações diárias são mensagens subliminares de namoro, de amor.
Para alguns, normalmente, os que já têm algum caminho juntos, essas ações diárias envolvem acordar mais cedo e preparar o café da manhã, no dia que a secretária não vem. Deixar a parceira à vontade e sempre buscar, no final de semana, as filhas quando elas precisam, independentemente se isso vai atrapalhar o jogo ou o bate-papo com os amigos. Trazer o filme, que sabe vai deixar todo mundo contente, para a sessão de sexta-feira com pipocas. Sair para o almoço em família no domingo e perder a esperada largada da corrida de fórmula 1, quando seu piloto favorito sai na pole posicion. Fazer questão de carregar as pastas e bolsas da parceira até a porta do elevador e dar um beijinho de despedida, todo dia.  
Para outros, que ainda mantém uma relação “menos séria”, as ações se traduzem em ligar quase sempre à mesma hora, ao cair da noite. Mandar uma mensagem por e-mail ou então um torpedo. Deixar uma mensagem no mural do facebook ou na comunidade do orkut. Marcar uma programação legal para o fim de semana e cumpri-la. Confeccionar cartõezinhos de votos de amor, por qualquer motivo, utilizando qualquer meio. Abrir, sempre, a porta do carro para que a parceira entre e tome assento.  
Certamente, todas as companheiras percebem essas coisas. E sabem que esse carinho representa muito para a relação a dois, mas, mesmo sabendo dos apelos não tão puros do dia dos namorados, preferem se submeter ao costume ou à imposição da mídia ou à vala comum do “Maria vai com as outras”.
Daí não tem jeito. Tem que comprar um presente, sair para um jantar romântico ou reservar um almoço especial, num lugar especial. Tem que fazer alguma coisa diferente do que acontece todo dia. Já pensou não ter o que contar às amigas quando chegar segunda-feira ao trabalho?  
E, pior, não adianta vir com aquela frase batida e que não deixa de ser verdadeira: “milha filha, eu sou o seu presente”. Não adianta dizer que não conseguiu tempo, não tem dinheiro, não sabia o que comprar. É uma exigência cristalizada na mente das mulheres (e dos homens também, por que não?), em todas as idades, em todas as classes sociais, e que se reproduz como se fosse uma erva poderosa.
Talvez a melhor forma de encarar a situação seja saber conviver com “as pressões sociais” dessas datas e se entregar ao apelo emocional, que queiramos ou não pode ser reavivado nessas ocasiões, e nos fazer muito bem.
A mensagem subliminar pode ser mais importante do que o presente, fruto do roteiro padrão do dia dos namorados. O presente pode ser importante, mas não pode significar que àquelas ações diárias não devem continuar.
Quiçá uma mensagem pelo celular com a frase “feliz dia dos namorados, beijos” possa, no dia seguinte, re-significada, se tornar “te amo, beijos”. E o melhor, vir com um gostoso, e molhado, beijo na boca.
Que esse dia dos namorados possa transformar as mensagens subliminares em poderosas ações explícitas de amor re-significado, na forma e no tempo que cada dois souberem conquistar. Certamente, será muito mais do que presentes.
Alci de Jesus

domingo, 5 de junho de 2011

Irmandade

Crônica da Semana: 05 a 11.06.2011

As tardes de sábado são uma ótima oportunidade para atualizar-se com as novidades dos jornais na internet. Depois de chegar do encontro semanal com os amigos, relaxar um pouco no sofá da sala, brincar com a cachorra, um belo banho, daqueles em que se lava a alma.
A água, no banho, cai do chuveiro, e ao molhar a cabeça retira todos os pensamentos e parece que deixa a mente aberta para absorver novas idéias e emoções. Não é à toa que quando a gente sai de um banho, pode até dizer: “pronto, estou pronto pra outra”.
Isto pode representar um pensamento ou um sentimento bem profundo, que signifique, por exemplo, estar pronto às emoções. Isto pode ser tão real na vida de cada um que se poderia dizer filosófico.
De fato, na busca dessas emoções, a gente quer ter a capacidade de, em casa, conversar com a esposa-companheira e com os filhos, e sentir aquele gostinho do amor perpassando os corpos, e uma alegria extasiante penetrar-nos.
A gente quer conviver com os pais e irmãos e ser sábio o bastante para expandir a felicidade dos momentos alegres e, ao mesmo tempo, ter a grandeza e a bondade para não deixar de se amparar, uns aos outros, num momento de pesar.
A gente quer se sentir conhecido e reconhecido, não superficialmente, mas pelo que representa no coração dos amigos, na expectativa de ver aquela energia fluindo entre os olhos que se cumprimentam, quando se despedem depois de algum encontro semanal.
A gente quer ampliar a relação com as pessoas em geral, tanto que se permite desnudar-se um pouco nas mídias sociais, e ser provocativo da boa conversa, aguardando que se transformem em momentos de vibrações energéticas massivas face to face.
A gente quer descobrir como externar o carinho latente, o verbo afetuoso largado no inconsciente, o afago fraterno represado. 
E o mais interessante, a gente quer estar pronto a essas emoções, de uma forma natural, que não seja cunhada a fórceps pelo “cult” moderno de auto-ajuda, mas resultado de um simples resgatar daquilo que sempre deveríamos ser e, por diversos motivos, não somos, na medida em que gostaríamos.
Na verdade, a gente quer ser, na mais profunda compreensão do que é existir. E às vezes não sabemos muito bem como expressar isso ou nos sentimos um pouco como um peixe fora dágua, quando somos confrontados a falar sobre ser humano ou mesmo a exercitarmos a humanidade na prática diária, e, assim, corre-se o risco do isolamento ou do individualismo.
A questão é que a gente é ser humano; a gente é pessoa humana; em princípio, a gente é irmão de raça. Por isso, muitos não compreendem porque há exploração e submissão, ricos e pobres, luxo e miséria, consumismo e fome.
É por isso, que, às vezes, numa tarde de sábado, depois de um banho em que se lavou a alma, pode-se deixar tomar pela emoção da história dos irmãos gêmeos, de 92 anos, que morreram no mesmo dia. Irmãos que passaram a maior parte das suas existências, juntos. Cresceram juntos, estudaram juntos, viajaram juntos, se ordenaram e vivenciaram a ordem franciscana juntos, e ao fim, morreram com diferença de apenas 12 horas.
Talvez seja esse o exemplo de irmandade, não falso moralista, que se procure ao nos relacionarmos com nossos pais, irmãos, parentes, amigos, enfim, todos. Afinal de contas, vale à pena lutar para sentir-se tão bem quanto se sente ao levantar o rosto sob a água límpida que cai na face e nos lava a alma.
Alci de Jesus

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Tem gente que não gosta do centro das cidades.

Semana: 29.05 a 04.06.2011

Sem querer, de bobeira na internet, procurando por qualquer notícia, sem juízo de valor, a gente pode esbarrar, por exemplo, em questionamentos sobre o centro das cidades brasileiras e sobre os mecanismos que se tem utilizado para, muitas vezes, resgatá-lo, tanto como centro comercial quanto residencial ou quiçá histórico.

É normal que paremos pra pensar um pouco sobre o centro das nossas cidades, especialmente, se você mora em uma capital, que já é uma metrópole. Se não pensou de forma estruturada, com certeza já fez algum comentário, externou uma opinião.

Geralmente, o centro de uma cidade é onde tudo começou. Dali é que partiu a estruturação urbana, planejada ou não, da futura cidade. Normalmente, as cidades mais antigas não foram planejadas e tudo cresceu por aglomeração, em resposta às necessidades do desenvolvimento comercial e político da antiga vila, que vira cidade e capital, por exemplo. É por isso que, quase sempre, o centro da cidade é um espaço histórico.

Porém, uma capital, que já é uma metrópole, sempre tem problemas, ninguém pode negar. Mas é interessante notar as opiniões das pessoas e confrontar com a tal modernidade, que, às vezes, assombra.

Se você pergunta a uma pessoa que não gosta do centro de uma grande cidade, como Fortaleza, por exemplo, vários são os argumentos: é quente, imundo, o trânsito é caótico, tem poluição visual, entregadores de folhetos de todos os tipos, muitas pessoas circulando, gente feia e mal educada, faltam estacionamentos, os flanelinhas não são regulamentados, as calçadas estão tomadas de ambulantes, há insegurança e mendigos pedintes.

Já outras pessoas, que gostam do centro de Fortaleza e não deixam de ir pelo menos uma vez por semana, defendem o centro porque tem mais espaço para andar, você pode ir à vontade, as pessoas não ficam te observando se você não for arrumado, há uma sensação de mais liberdade, existem mais opções de lojas, é geralmente mais barato ou então os preços são mais variados, não se paga pelo luxo das lojas de um shopping ou pela segurança e câmeras de vigilância, ainda se vê os mais idosos conversando nas praças. Além de que tem os escritórios de mães e pais de santo, de dentistas populares e as ciganas, leitoras de mão. Afora que no centro se pode fazer o conserto de tudo, e comprar de tudo também.

Na realidade, no centro, geralmente, as coisas estão umas mais perto das outras, e você consegue percorrer tudo a pé. Você pode sair de uma loja de departamentos e comer um pastel com caldo de cana. Você tem acesso aos bancos, cartórios, livrarias e também pode comprar um livro antigo num sebo ou negociar na feira de troca-troca de livros. Essa diversidade parece ter uma grande atratividade, em especial, se você tem menos poder aquisitivo ou, então, quer exercitar a pechincha.

Alguém poderá dizer que, de certa forma, mantendo o princípio, um shopping é muito mais interessante e que já existem shoppings que têm as mesmas características do centro das cidades, só que sem os problemas clássicos dessas aglomerações.

Com certeza os que pensam assim querem se enganar. O centro é insubstituível. As pessoas gostam do centro, exatamente pela miscigenação de pessoas, atividades, sabores e cores, coisa que se pode tentar imitar em um shopping, mas sempre vai ser diferente da energia que se encontra no centro.

No caso de Fortaleza, onde que num shopping você vai encontrar um vendedor de quebra-queixo, com a sua caixinha e sua espátula tradicional, com o produto enrolado no papel manteiga e sob a fuligem dos carros que passam ao largo, pertinho da Igreja do Carmo? Ou então poderá comer um espetinho, ao cair da tarde, com uma cerveja gelada olhando para o Passeio Público? Ou encontrar com os amigos e saborear um frango ao passarinho à beira da Praça do Ferreira? Isso é cultura e é cultural.

É por isso que os defensores dos shoppings, nas rodas de cultura, são também aqueles que defendem a revitalização do centro. Porque ninguém agüenta viver sem a memória da origem de sua cidade. É como não ter também a memória de sua própria origem. E comprar e valorizar, em viagens culturais, a memória de outras cidades.

Viva aos pais que levam os seus filhos, mesmo que de carro, e lhes apresentam o centro da cidade, seus lugares históricos, suas praças, sua vida.
Quem dera pudéssemos ter a capacidade de num passe de mágica resolver os problemas dos centros de nossas cidades, sem que eles perdessem a sua identidade, mantendo a mesma energia que cativa tanta gente, que toda semana vai ao centro, mesmo que não vá às compras, simplesmente vá ao novíssimo Centro Cultural ou ao Teatro, centenário.

Alci de Jesus

domingo, 22 de maio de 2011

Você sabe a força que tem a música?

Semana: 22 a 28.05.2011

Qualquer um de nós já se deixou levar por uma música. Lembra? Pode ter sido lá no passado. Talvez, por conta de um amor perdido. Ou, então, pelo festejo alegre, jovial, dos amigos, virando a noite nos papelões, num dos quintais disponíveis, com a fogueira acesa e a estrelas sob o olhar.

Cada um tem o seu momento e a sua música preferida. Com certeza todos nós tivemos algum momento na vida em que refletimos sobre isso. Certa vez, em Jericoacoara, já nós anos 2.000, havia faltado luz na pousada. Na beirinha da noite, junto à mulher, irmãos, cunhada, filhas e sobrinhos, a oportunidade de conversar sobre coisas fugidias. Sobre aquela música que se alguém perguntar vem a sua cabeça de imediato.

A lembrança e o cantar “
Alguém cantando”, imitando Caetano, formavam um quadro interessante. Mas, se fosse piegas qual o problema? Por que é que a gente tem que se sentir constrangido com isso?

E o que é pior, é verdade. A maioria de nós se sente constrangido em comentar que gosta daquela música e que o seu conteúdo nos marcou ou marca muito. Se sente inibido em cantá-la, ou mesmo balbuciá-la, baixinho, perto de outras pessoas.

Porém, no carro, no banheiro, sentado esparramado na poltrona da sala, num sábado à tarde, não se contenta se o som não estiver no volume mais alto, o pensamento longe, e a voz na imensidão. Naquele momento, só se satisfaz quando a música enche o coração até derramar lágrimas, quiçá. E ali, não tem constrangimento, não tem inibição, não tem mais nada, é felicidade pura.

É por saber que isso acontece com as pessoas que não é difícil generalizar e dizer que todos nós sabemos a força que tem a música. Ela pode nos deixar alegres e tristes; transportar-nos distâncias; tornar-nos crianças, vivas e saltitantes. Trazer-nos serenidade plena.

E não precisa ser aquela música preferida, para sentirmo-nos desse jeito. Sem que a gente queira, uma música entra na nossa cabeça; e, às vezes, podemos até, inicialmente, não gostar, mas daí você ouve uma vez, duas vezes, três vezes e pronto, gostou e já faz parte do espaço reservado às emoções, no cérebro e, conseqüentemente, no coração.

Outras vezes, você ouve somente uma vez e já gostou. Pode até ser influenciado por um amigo ou uma resenha, mas, ao final, o que vale é a sua emoção, a qualidade do estado de coisas em que a música ouvida lhe deixou.

E hoje, com a internet, e as mídias sociais, tudo é muito rápido. Já pensou uma música, como a "
Oração", em uma semana ter mais de um milhão de audições? É claro, que o entorno da música também conta para o “gostar” de cada um, mas isso só aumenta a força da música, porque nos remete ao potencial coletivo que a música pode ter.

Mas a força coletiva que pode ter uma música é outra coisa, é para outra crônica. Até porque, primeiro, para se tornar coletivo é preciso envolver o individual e esse indivíduo precisa querer externar a sua emoção, quebrando alguns preconceitos.

Bom seria se a gente fosse envolvida por algum projeto em que, num passe de mágica, se pudesse ficar livre de todo o constrangimento e inibição e sem receios pudesse cantar músicas a plenos pulmões. Desafinado, com a voz gasguita, de qualquer jeito, por que não? Talvez, todo mundo, numa grande sala, com fones de ouvido, curtindo e cantando a sua música preferida. Poderia ser um começo.

Talvez, pudesse começar também, com cada um de nós enviando a uma amiga ou um amigo uma mensagem, dizendo “adorei essa música”, com o link da música no “you tube” ou a letra transcrita ou o endereço do site em que se pode baixá-la.

É sempre uma emoção receber algo assim. Uma vez, uma amiga mandou ouvir a música “
Wish you were here”, do Pink Floyd. Hoje, a música que toca à noite no subconsciente, ao dormir, é “Tears in Heaven”, de Eric Clapton.

Cada um vive a sua emoção e em um dia são muitas emoções. Ainda vem na lembrança a mensagem da filha querida, contando sobre aquela noite em Jericoacoara: “Pai, aquele momento foi muito legal!”. De certa forma, tudo na vida é música. Cada um tem que construir sua capacidade de fazer parte dessa grande composição, que a todo o momento está se (re) construindo.

Alci de Jesus

domingo, 15 de maio de 2011

O que faz a gente torcer é o mesmo que faz a gente se indignar?

Semana: 15 a 21.05.2011

Com certeza qualquer um de nós já sentiu aquela emoção que não deixa de nos envolver quando estamos torcendo. Pode ser no futebol, no vôlei, no basquete, no ping-pong, na bolinha de gude, ou mesmo em tantas situações não esportivas. Não há quem em toda a sua vida não se envolveu ou não vá se envolver num episódio de “torcer” e possa, sem perceber, até dizer um ou vários palavrões, sem querer, querendo.

A sensação é variada e depende pelo que você está torcendo ou o grau de relacionamento com o possível resultado. Às vezes, não tem nenhum relacionamento com o resultado, mas tem vínculos paralelos com alguém ou uma causa. E isto já é fator de grande mobilização e emoção.

Outras vezes, em especial, quando se trata de questões esportivas, o simples “gozar” o colega de trabalho já basta. A alegria e o despojamento são contagiantes. Até mesmo quem não é torcedor do time vencedor se sente envolvido.

E torcer não tem idade. A formação se dá desde criancinha. Em casa, no colégio, na rua, em tudo há formação para torcer. Não é incomum ver-se uma criança “carregada” com as cores do “time do coração” chorando pela perda do título; ou, então, um velhinho com mais de 80 anos, sorrindo, banguela, a conquista do campeonato.

Não é incomum ver-se, em qualquer canto do mundo, no futebol, no rúgbi, em qualquer esporte, manifestações imensas de pessoas alegres, torcedores ou apenas acompanhantes, vibrando, em festas exuberantes. Uma convergência de energias que nos parece poder mover montanhas.

Torcer parece estar ligado à emoção, e como emoção, às vezes, não se controla, porque não racional. Alguns intelectuais criticam, outros criticam quem critica; hoje, torcer, de forma geral, é “Cult”, isto é, é politicamente correto.

Não se pode deixar de dizer que, talvez, a busca dessa emoção seja da essência do ser humano, ou quiçá resquício dos processos históricos, como da política do pão e circo, da Roma antiga, onde quase todos os dias havia lutas de gladiadores nos estádios, com distribuição de alimentos.

Deve-se dizer também que, apesar de humanos, por vezes torcedores fanáticos, vivemos episódios de insurgência, históricos, de massa, em todos os cantos do planeta, em todas as épocas. No Brasil recente, nas “Diretas Já”, no “Fora Color”, reforçando o que diria Nelson Rodrigues: “A liberdade é mais importante do que o pão”.

É interessante observar como a mesma emoção que nos leva a torcer e que numa rapidez impressionante nos une e nos faz ser multidões, não é aquela emoção, que nós também temos quando nos indignamos com as injustiças e com o que achamos que não é certo na humanidade. Talvez, a tal modernidade nos leve a utilizar mais corriqueiramente, e efetivamente, as redes sociais para a auto-mobilização coletiva, como já ocorreu recentemente.

Porém, ninguém pode achar que é fácil encher um estádio com 50 mil pessoas para ouvir a música de Mikis Theodorakis: “Uma música mais forte do que os tanques de guerra”. Um Ceará e Flamengo talvez consiga com muito mais tranquilidade.

Alci de Jesus

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Somos educados? (I)

Semana: 08 a 14.05.2011

O mês passado foi dedicado à leitura. Várias datas marcaram isso. Dia 02 de abril foi o dia internacional do livro infantil. Dia 18 de abril foi o dia nacional do livro infantil. Dia 23 de abril foi o dia mundial do livro e do direito do autor, e no dia 28 de abril comemorou-se o dia da educação.

Não sei por que essas referências vieram à mente quando o ator Clint Eastwood, numa dessas propagandas que vêm antes de um filme no cinema, disse: “afinal, nunca se sabe a quem um filme pode influenciar”.

Juntando as idéias dos parágrafos anteriores, realmente, em princípio, todo mundo defende a educação como um fator que influência as nossas vidas, como uma das possibilidades de mobilidade social. Geralmente a gente relaciona educação com a leitura, especialmente, de livros. E ser educado passa para muitos a idéia de pessoas que realizam as coisas de maneira adequada.

Mas será que essa defesa da educação não é só, como se diz, para inglês ver? E outra, será que a leitura de um livro educa mais do que uma atitude dos pais ou da própria coletividade?

A ligação que está sendo feita é que educação tem relação com a leitura de livros e que ser educado é fazer as coisas corretas. Mas, infelizmente, não é isso que a gente vê no dia a dia. Não é difícil, se você ficar um pouco mais atento, perceber.

Talvez fosse o caso de instituir um Dia Nacional para Avaliarmos a Educação de cada um de nós. Mas não precisava ser um dia específico porque se fosse assim muita gente podia, talvez, querer enganar e se passar por bonzinho. Tinha que ser uma coisa de dentro, de cada um e por isso mesmo, a pessoa poderia realizar sua avaliação em qualquer dia, desde que fizesse uma avaliação séria.

O Ministério da Educação poderia até reservar algum recurso a fim de treinar cada cidadão para se auto-avaliar. O treinamento abrangeria a auto-avaliação desde o acordar até o final do dia, focando em que cada um ficasse mais atento em cada atitude, sua ou dos outros.

Seria um exercício interessante.

Será que todos dão bom dia a suas secretárias? Ficam meio emburrados quando a secretária, não por um descuido, lê o jornal antes do patrão? Aborrecem-se porque a secretária não limpou a caca da cachorra, que não fez a coisa no lugar certo?

Na padaria, no supermercado, na compra diária do pão quentinho ou das compras da semana, uma das observações seria verificar se estão tirando o carrinho vazio da boca do caixa. Parece que quem vem atrás tem a obrigação de fazê-lo ou, talvez, haja a transferência dessa tarefa para a própria empresa, só que a empresa, geralmente, não faz daí quem paga o pato? E o pior é que as pessoas não estão nem aí, parece já ser uma obrigação cristalizada: quem vem atrás na fila do supermercado tira o carrinho vazio deixado por outra pessoa na boca do caixa.

No trânsito, na hora de deixar os meninos na escola ou ir e voltar do trabalho, muitas coisas poderiam ser observadas. Tem os que avançam o sinal, os que colocam o bico do carro na mão quando vão passar uma preferencial, os que não dão sinal algum se vão dobrar, os que andam pela contramão e se sentem totalmente à vontade – quem está na mão certa que desvie seu carro, os que buzinam por qualquer coisa sem observar que o trajeto está engarrafado e ninguém vai poder passar seu carro por cima dos outros, aqueles que ficam tão irritados, às vezes sem razão, e soltam palavrões. Com esses é preciso ter muito cuidado.

E o pior de tudo é que esses adultos fazem tudo isso na frente dos seus filhos menores.

Mas ainda tem muito mais coisas a serem observadas. Tem o tratamento com os filhos e com a mulher em casa, com os pais, com os parentes, com os amigos, com os vizinhos, com os colegas de trabalho. Será que é importante observar também a participação nas reuniões de condomínio? A contribuição que se está dando a comunidade onde mora? A voz no orçamento participativo do bairro?

De fato, observar as diversas relações que se tem, como, por exemplo, com as empregadas domésticas é um grande exercício de análise se somos ou não educados. Obviamente por trás de tudo isso tem coisas bem maiores, culturais, sociais, políticas; tem a questão da cidadania.

Às vezes, a gente vê a secretária ou o próprio dono do cachorro - que levou o saquinho para isso - agachado e resgatando as fezes do animal de estimação para colocar no lixo próximo. Muitos não o fazem, por quê?

Muitos desses são os mesmos que reclamam da Prefeitura por não realizar a coleta de lixo (mas não evitam colocar o lixo fora da data indicada pela empresa coletora) ou do administrador do condomínio da limpeza medíocre que estão fazendo da sua área comum (mas colocam a guimba de cigarro na escada e as cinzas em qualquer lugar do prédio).

Por tudo relatado, as respostas às perguntas poderiam parecer fáceis, mas não são. De fato, há muita retórica em relação à educação, senão as pessoas não agiriam do jeito que agem. Por outro lado, não é incomum uma filha que lê bastante pedir ao pai: "Pai, não dirija o carro fazendo ligação ao telefone". Ou, então, criancinhas que estão no infantil replicarem: você não falou as palavrinhas mágicas! Isso indica uma luz no fim do túnel, afinal de contas nem sempre "filho de peixe, peixinho é"!

Alci de Jesus

domingo, 1 de maio de 2011

Agora, redes sociais?

Semana: 01 a 07.05.2011
Por um acaso, num desses repentes que sempre se espera seja longo, até por conta do exemplo a ser dado a uma filha querida, a gente se permite resgatar fervorosamente a leitura. Se você tem recursos para comprar pelo menos um livro por mês, legal, porque daí você lerá pelo menos 12 livros por ano, o que já é bem mais do que a média brasileira.
Mas, se dá a sorte de ter acesso a uma boa biblioteca da empresa onde trabalha, aí é uma oportunidade. Além disso, você pode também tentar a biblioteca da escola do seu filho (na do Colégio Santa Cecília tem vários livros da bibliografia do Saramago). Na realidade, toda escola tem que ter uma biblioteca, e, às vezes, é muito boa, e mesmo se não for diversa, não é possível que não tenha algum livro que agrade.  E ainda, ninguém pode alegar que não existe, todo município tem uma biblioteca, além das bibliotecas do Estado.
Passeando por uma dessas bibliotecas, um livro chamou a atenção: “Os 100 livros que mais influenciaram a humanidade”, de Martin Seymour-Smith. Na capa o chamativo subtítulo: a História do Pensamento dos Tempos Antigos à Atualidade.
Pelo sumário, vendo os livros que são retratados, já se tenta imaginar o teor das sinopses. E as sinopses, que na verdade não são sinopses, explicitam – com justificativas - a pretensa importância dada aos livros que são relatados.
Pelos primeiros livros, que seguem uma ordem cronológica, a partir de 1500 anos antes de Cristo, vê-se que é como se retratassem a origem do pensamento, da filosofia, antes mesmo da escrita.
Imaginar como por séculos, pela linguagem oral, foram reproduzidas aquelas histórias, que depois foram registradas pela escrita, é impressionante. Naquele tempo, onde as distâncias eram muito maiores do que hoje, onde as guerras pela ocupação do espaço e pela manutenção do poder era o cotidiano dos povos havia a preocupação da reprodução (ou aniquilação) das histórias das nações, inclusive como instrumento de dominação. Existiam pessoas que sobreviviam exatamente por emitir, verbalmente, a história de uma grande batalha, de uma grande vitória, de um grande sábio ou filósofo, de um ritual especial. Na verdade, naquilo que em nossa mente chamamos de passado, existia uma rede social, não exatamente como existe hoje.
É verdade, cada um de nós certamente ouviu o nosso pai, já na faixa dos cinqüenta, falar: “naquele tempo, as pessoas, na boquinha da noite, sentavam nas calçadas e contavam histórias”. Se recordarmos, na escola, as professoras contavam que os povos indígenas entoavam canções com as histórias de seus antepassados. E não raramente, se ouve falar de um acontecido, que passando de boca em boca, virou verdade verdadeira e passou a ser reproduzido e ensinado, com seus valores e atitudes virando doutrina para toda uma região.
Alguns, que se diriam saudosistas, reclamam que não há mais essa conversa, face a face; que não há mais oportunidades de contar as histórias; que os mais jovens não se interessam mais por isso.
Muitos alegam que a modernidade trouxe essa transformação. No Brasil a vida virou mais urbana, e a cultura de reproduzir oralmente histórias, que é mais rural, foi se perdendo. Alguns alegam que tem muita relação com as novas formas de comunicação.
De fato, a realidade da internet, com seu e-mail, msn, twitter, orkut e, agora, facebook é muito diferente e transformadora. As possibilidades de criação de páginas, blogs etc., assim como de se estabelecerem as conversas e relações é tão veloz, que pode ser sufocante. E não seria questionável se os educadores alegassem que, no geral, está se perdendo a profundidade.
Porém, parece que as novas mídias podem ser instrumento de resgate daquela velha rede social, dos nossos pais e avós, de nossos ancestrais, mas de outra forma. Parece ser concreta a possibilidade da construção (e resgate) de uma rede de amigos, e a partir do meio virtual se programar encontros, e vivenciar-se novos projetos presenciais.
É real, só que virtual, o “papo diário de calçada” e com um raio de ação muito maior do que somente os vizinhos de meia parede. Agora os amigos estão em todas as ruas do bairro, em todos os bairros, em toda cidade, no estado, no país e até no estrangeiro.
É fácil alguém convidar para uma audição dos velhos e bons discos de vinil na casa da Elaine, ou, então, para um jantar na casa da Bembi ou ser provocado pelo chamamento alegre da Fernanda para a saudação aos irmãos indígenas. A poesia, o romantismo desse concreto porvir depende de cada um.
Voltar ao passado, nos afastar dos nossos espigões, onde estamos engaiolados e protegidos, e de onde exalamos nossas palavras por meio das novas mídias pode ser difícil. Reconstruir essas mídias a nosso favor é uma possibilidade.
E por outro lado, mal comparando, a gente sabe que aquela cultura oral, que de certa forma está reproduzida nas redes sociais atuais, não se acabará jamais, basta ver como funciona a “rádio peão”, especialmente, nas conversas nos corredores da empresa ou no bate-papo no horário de almoço. Isso faz parte da gente, é como diz um velho amigo: “de quem vamos falar hoje?”. E depois, vem uma doce e enorme gargalhada.  
Alci de Jesus